quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Rodrigo da Fonseca Tavares.



"Eu devia estar contente porque eu tenho um emprego, sou um dito cidadão respeitável e ganho alguns reais por mês...

Eu devia agradecer ao Senhor por ter tido sucesso na vida como artista, eu devia estar feliz porque consegui comprar um precision 73...

Eu devia estar alegre e satisfeito por morar em Perdizes, depois de ter passado fome por dois anos em São Paulo...


Ah! Eu devia estar sorrindo e orgulhoso por ter finalmente vencido na vida, mas eu acho isso uma grande piada, um tanto quanto perigosa...

Eu devia estar contente por ter conseguido tudo o que eu quis, mas confesso abestalhado que eu estou decepcionado...

Porque foi tão fácil conseguir e agora eu me pergunto "e daí?"
Eu tenho uma porção de coisas grandes prá conquistar e não posso ficar aqui parado...

Eu devia estar feliz pelo homem ter me concedido o domingo prá ir com a família no Jardim Zoológico dar pipoca aos macacos...

Ah! Mas que sujeito chato sou eu que não acha nada engraçado.
Macaco, praia, carro, internet, tobogã, eu acho tudo isso um saco...

É você olhar no espelho, se sentir um grandessíssimo idiota, saber que é humano, ridículo, limitado, que só usa dez por cento
de sua cabeça animal...

E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial, que está contribuindo com sua parte para o nosso belo quadro social...

Eu que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar...

Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais,
No cume calmo do meu olho que vê, assenta a sombra sonora
de um disco voador.

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